O sonho e a realidade – psicodelias etéreas

Sentado sobre as pedras do alto do morro, olha para o horizonte enquanto o sol se põe. Ouve as batidas das ondas do mar contra o rochedo, mas não vê as notas de Handel dançando no oceano como nas suítes de Water Music1. Observa as gaivotas que flutuam leves, firmes, desenhando movimentos enérgicos e velozes. E durante todo o tempo que decorre o pôr do sol, surpreende-se com as variações nas cores e luz da paisagem. A brisa mansa parece estar seduzindo o orvalho para que ele chegue mais, neste exato momento.

Algumas estrelas apontam pequenos e quase imperceptíveis brilhos, há milhares de anos luz.

Mantém-se ainda ali, sentado, observando, enquanto as ondas incansáveis do mar jogam-se às pedras. Estas sempre tão imponentes, rígidas, aparentemente inabaláveis. Uma relação intensa e estável, a das ondas e das pedras, apesar da notável instabilidade.

O orvalho possui muitas máscaras, e mais uma vez, seduzido pela brisa, apresenta-se. Algumas vezes ele encanta, outras vezes ele assusta, e parece gostar de provocar reações. É um exibicionista, esse orvalho. Geralmente põe casuarinas pra chorar. Elas choram seus pingos; de alegria, com o fog colorido da paisagem, quando ele vem embalado sob os humores romanceados da Belle Époque2, ou de tristeza, com a melancolia cinzenta da paisagem, quando ele vem bruto como as nuvens escuras das tempestades de inverno. Casuarinas são emotivas e dançam conforme o vento. Até a mais suave brisa passageira estimula os seus sempre elegantes movimentos, marcados com graça, imitando as notas rabiscadas nas partituras de Strauss3.

Levanta-se, volta as costas para o mar e sai andando em direção à casa. Vê então um porúltimo raio de sol daquele fim de tarde desaparecer por detrás dos morros. As gramíneas que murcham desidratadas e exaustas por suas funções diárias, são acariciadas pelo orvalho, não importando a cara com que esse venha, ele é sempre a energia vital que torna-as tenras e viçosas outra vez. Um exibicionista necessário, que pinta o clima e exerce função fundamental para a vida.

O chão em veias abertas4 nos pés descalços5 que caminham. Dois movimentos que se complementam, o da Terra e o do Homem, em minuetos universais poderão ser traduzidos aos ouvidos. No compasso dos passos também há o tom de uma outra canção, que pode ser tão inédita que jamais foi desenhada antes. No compasso dos passos também pulsa um coração.

Os pássaros vão se ajeitando em galhos, algumas flores lentamente começam a se fechar e a sinfonia fica completa com os sapos, grilos e cigarras. Em algumas épocas os vaga-lumes brincam de enganar observadores com suas luzes piscantes, enquanto se movimentam rapidamente de um lado para o outro. É uma festa. A natureza sendo bem observada pode ser relatada como uma espetacular festa encantada.

A lua está mais uma vez deslumbrante, uma dama iluminando a noite, tempo mágico em que a maioria se põe para dormir. Esse tempo em que se atravessa o portal do sono e transfere-se para o mundo dos sonhos, um mundo à parte, de sonhos etéreos e psicodélicos que podem levar a lugares nunca antes colocados sob o chão dos pés durante os dias.

Sonhos são vidas existentes dentro da vida que criamos na existência. Ilusão e realidade, serão igualmente experimentadas pelos sensores neuronais.

Fecha-se em sua casa e acomoda-se para a viagem noturna, embalada pela sinfonia dos bichos, pelas valsas das casuarinas, e pela ausência das notas de Handel nas batidas das ondas do mar. Tudo delineado pelo misterioso e reservado clarão que reflete da lua. O clarão da lua, esse tão atraente quanto a mais bela jovem recatada sendo observada à distância, e em segredo, sob os olhares de um ser apaixonado.

Há infinitas conexões universais acontecendo em seus neurônios cerebrais, a compreensão dessa atividade plural é inalcançável pela própria observação do homem, é apenas suposta. A transição entre as conexões que observam a vida acontecendo ao redor e as que criam imagens sob influência de desejos, motivações e esperança, poderia ser descrita em música como a fabulosa composição de Pachelbel em Canon6. Sublime.

Adentra pelo mundo dos sonhos e não faz ideia de como ou desde quando está ali. Na verdade, isso nem lhe ocorre ao pensamento. Simplesmente ali está, como se sempre estivesse, tudo lhe é familiar e parece cotidiano. Diferente daquilo que conhece no dia-a-dia da vida que considera real, no mundo dos sonhos parece haver mais possibilidades, mais facilidades, mais alcance, tudo natural. Enquanto sonha, aceita aquelas condições como reais.

Mochileiros”. Andarilhos, curiosos, descobridores. Vívidos! Com o que mais poderia sonhar? Sonha com as partículas formadoras do seu DNA. Sonha com a essência. Sonha com a sua verdade. Sonha com as viagens. Com as viagens que já realizou, com as que deseja realizar e com as que deseja desejar realizar. Assim liberta-se o espírito de um espírito livre.

Projeta-se viajando da maneira mais tranquila, desapegada e alegre que pode conceber pelas suas possibilidades. Formulários e papeladas pra passaporte? Pfffff… isso não existe no mundo dos sonhos. Regularizar o Título no TRE, pagar taxinha no banco porque não compareceu nas urnas das Eleições mais recentes? Pfffff… isso não existe no mundo dos sonhos. Solicitar vistos para atravessar uma fronteira e permanecer alguns dias em terras estrangeiras? Pfffff… isso também não existe no mundo dos sonhos. Seguros, documentos, autorizações, burocracias… Pfffff… Porque no mundo dos sonhos os caminhos são mais retos, e não há essas engronhas todas criadas (para dar sentido às próprias existências e para ter o que fazer) pelos homens na vida do mundo físico (que considera-se o) real.

Como é fácil estar com “diocá na estrada” pedalando pelo mundo. Se pudesse voar com as próprias asas estaria voando. O que as rodas da bicicleta fazem é otimizar suas ferramentas de locomoção: as pernas, proporcionando-lhe velocidade e maior autonomia. E nesses quilômetros pedalados encontra-se e desencontra-se por muitas paisagens diferentes, e a cada dia de novidades e breves amizades infla-se em seus mais íntimos estímulos um acúmulo de “quero mais”. É alegria química sendo transportada pela rede neuronal, que vicia e que fará com que sua vida seja impulsionada para a realização dessa necessidade.

Os imprevistos, acidentes e possíveis perdas podem ser imaginados, mas somente quando e se acontecem é que serão então racionalmente avaliados. A importância maior é sempre estar atento e integrado ao “bonito do caminho”, em suas singularidades, complexidades, distâncias e semelhanças a todos os outros lugares já visitados e aos ainda não avistados.

Dos encontros que acontecem por esses lugares comuns e incomuns, nascem outros sonhos. Dentro do sonho. Se vê sonhando enquanto pedala, enquanto o sol bate na cara, enquanto o vento da velocidade massageia sua pele e o faz sentir-se vivo mais vivo do que em vida real. “Real”. Assim como quando encontrou as “panelas de capim” com suas iguarias tão saborosas e ritualísticas, um sonho de lições de vida integrada à natureza. Natureza que agora se presta a ceder espaços para acomodar sua nova casa nômade sempre que necessário, desde que se lançou pelas estradas numa bicicleta, carregando uma barraca para dormir nas noites de “Clair de Lune7, onde Debussy faz a noite enluarada dentro do sonho da noite, também enluarada.

Come-se” foi uma perdição bem temperada nesse sonho que poderia levá-lo à eternidade sem melindrar, desejou permanecer por lá para sempre, eternamente, como acontece aos deuses da mitologia, de vida eterna. Mas, como na “ideia de Lacan: As fantasias têm de ser irreais. Porque no momento, no segundo que consegue o que quer… não quer, não pode querer mais. Para poder continuar a existir o desejo tem de ter os objetos eternamente ausentes.”8. No momento que consegue o que quer, não quer, não pode mais querer. Já tem. Bem, permanecer pela eternidade no sonho será irreal tanto quanto a eternidade em um sonho também é irreal, portanto essa eternidade não será conseguida e portanto poderá ser desejada. Voltando ao Come-se: nem Sherazade9 teria tido tanta criatividade para apresentar aqueles pratos cheios de história. Um mais apetitoso, bonito, colorido e delicioso do que o outro. Sem contar a alegria da função toda do preparo, a ansiedade de ver o resultado, a espera para saborear o produto pronto e acabado. Verdadeiras obras de arte. Klimt10 olharia com desdém sem graça de inveja e talvez desse o braço a torcer pra elogiar algum petisco.

Ah, quando acordar, vai desejar que o sonho se torne a realidade. Vai sim!

Em algum desses sonhos dentro do sonho foi que alguém lhe disse: “casei e comprei uma bicicleta”. Oras, e quem foi que inventou que teria que ser ou uma coisa ou a outra? E por que não as duas? Será que é só em sonhos que isso pode ser possível? Será que os sonhos estão para a realidade assim como a Filosofia está para a Física? Parece uma boa questão pra resolver na regra de três. “Casar e comprar uma bicicleta”, “regra de três”, “filosofia”, “você precisa escrever um romance!”. E então a recordação dos “nômades digitais” surgiu instantânea e o fez acordar. Acordar do sonho que estava sonhando dentro do sonho – só pra clarear como o reflexo da lua. E novamente sobre sua bicicleta pedalou com muita energia… Vento na cara e o sol emitindo seus raios energéticos sobre a pele, que órgão fantástico esse, a pele.

Ao completar a sua primeira volta ao mundo estaria finalmente apto para se tornar um “vagabundo profissional”. Isso não é pra qualquer um. É fundamental ter muita disposição e ser dedicado, muito esforço, muita resistência, muita resiliência. É preci(o)so humildade. Só pra quem tem muita vontade mesmo. Vontade de Potência11, quem sabe?

Despediu-se de diocá na estrada, adotou algumas panelas de capim, casou e comprou uma bicicleta e sob o lema “Come-se” tornaram-se nômades digitais, sempre com o objetivo de se graduar no mais alto e prestigiado nível de vagabundo profissional.

Um de seus trabalhos estava sendo editar as “notas sobre uma escolha”. E quem disse que seria fácil? Não é. Porque essas notas estão acontecendo no mundo real, aquele, cheio de engronhas criadas pelos homens para que eles próprios tenham o que fazer e possam dar algum sentido às suas vidinhas. Numa das edições a dificuldade da situação pareceu tão real que já não cabia mais no sonho, e então, subitamente, acordou.

Alardeado pela algazarra matinal promovida pelas goelas potentes das aracuãs. As aracuãs despertam até os mais dorminhocos e preguiçosos, bastam uns primeiros raios de sol.

A noite acabou, a lua apagou, e do sonho acordou. O que acontece de agora em diante, durante o dia, nada tem a ver com os anseios cobiçados e realizações nos sonhos das noites. Os dias são feitos para resolver problemas criados pelas engronhas humanas que atravancam os sonhos.

Não é a utopia que serve para que você possa caminhar dez passos adiante – caminhar é o natural. São as engronhas criadas que não permitem alcançar a simplicidade dos sonhos.

Abre a porta e olha. Volta-se para o sol nascente surgindo desde as Atlânticas e infinitas águas oceânicas. Lembra-se vagamente dos sonhos que experimentou durante o sono da noite e mais uma vez dirige-se à resolução de engronhas para justificar que sua vida tem sentido e que os sonhos não passam de mera ilusão. Afinal, são apenas sonhos.

____________________________________

[1] Water Music (Música aquática), concerto orquestral composto por George Frideric Handel a pedido do Rei Jorge I para ser executado em barcas sobre o Rio Tâmisa. Teve estréia com aproximadamente 50 músicos em Julho de 1717.

[2] Belle Époque (bela época), efervescências cosmopolitas na Europa entre fins do séc. XIX até o início da Segunda Grande Guerra.

[3] Johan Strauss II (1825-1899), compositor das mais variadas e famosas valsas vienenses.

[4] Veias abertas da América Latina, referência ao livro do escritor uruguaio Eduardo Galeano, publicado em 1971.

[5] Universidade dos pés descalços (barefoot college), proposta de soma de conhecimentos entre diferentes comunidades carentes ao redor do mundo.

[6] Canon, composta por Johann Pachelbel (1653-1706). Precisa ouvir.

[7] Clair de Lune, composição de Claude Debussy (1862-1818). Precisa ouvir.

[8]Excerto extraído de um discurso do professor em auditório de aula numa cena do filme “A vida de David Gale” (The Life of David Gale) dirigido por Alan Parker e lançado em 2003, que sintetiza ideias filosóficas entre Lacan e Pascal.

[9] Rainha Sherazade, a contadora de histórias de “As mil e uma noites”.

[10] Gustav Klimt (1862-1918), das obras exuberantes e douradas.

[11] Vontade de Potência (Der Wille zur Macht), referência ao livro do Filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900).

* Fotografia de Jalleh Inemen – Pôr do sol nas pedras do ouvidor / SC.

2 comentários sobre “O sonho e a realidade – psicodelias etéreas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s