A princesa e o desencanto – desamores românticos

Era uma vez, em uma galáxia muito muito distante do buraco negro, havia um planetinha colorido e alegre, onde tudo parecia estar em harmoniosa e positiva vibração (conceitos culturais adquiridos e somados durante milênios de existência pensante e comportamental). O planetinha era predominantemente azul por ser parcialmente coberto por oceanos, e possuía densas manchas verdes nas partes continentais, que revelavam suas lindas e históricas matas florestais, onde habitavam um sem número aglomerado de espécies variadas em equilíbrio, como também acontecia nos oceanos.

Havia também no planetinha uma espécie de gentes, diferente dos outros animais porque as gentes usavam uma capacidade cerebral desenvolvida para observar, pensar, pesquisar, criar, e entender como as coisas funcionam. Dessa gente era feita a Princesa, do gênero feminino dessa espécie. Que, como todas as outras princesas do planetinha, desde pequena era direcionada para desejar e gostar de um príncipe, do então gênero masculino dessa espécie. O que superficialmente poderia ser explicado pela Teoria do Gene Egoísta1 com muita facilidade. Para propagarem-se e evoluir em suas existências, os genes dependem da união de um exemplar masculino e um feminino, logo, príncipes e princesas unidos são suas ferramentas fundamentais nessa tarefa simplesmente biológica.

Essa espécie de gentes acredita que existe porque pensa. Estudos científicos não identificam atividade cerebral semelhante a da espécie de gentes na maioria das outras espécies animais, mas eles também existem. Estão lá, servem de alimento, companhia, ferramenta de trabalho, servem para o equilíbrio da natureza em que essas gentes vivem. As gentes são dependentes da natureza para viver, e a recíproca não é verdadeira.

Os demais animais não pensam, logo, existem. Hum?… existem porque a gente pensa que eles existem, então, logo, existem? (…) Fato é, que novamente pela Teoria dos Genes Egoístas, tudo o que se reproduz e evolui no planetinha está sob controle dos super poderosos genes!

Óh, mas o que será do amor? Das re-encarnações espirituais, das “almas gêmeas”? Perguntam os anciãos. Alguns garantem, com toda a certeza que há em suas próprias concepções, que viveram o grande amor, do encontro com sua alma gêmea, e que irão se encontrar novamente na próxima encarnação. “Penso, logo, existo!”2 .

E lá vai a Princesa, com sua bicicletinha para a escola, lugar onde… ensinam. É. Ensinam. A ler, escrever, usar a linguagem de comunicação para se expressar e para compreender expressões. A escola é como um terceiro lar; o primeiro seria o planetinha, o segundo a casa da família e o terceiro então, a escola (Charles Wright Mills3 citaria “família, igreja e escola” Leonardo Sakamoto4 também). Assim, as gerações aprendem a reproduzir os costumes, a cultura, e evoluir adaptando-se às mudanças externas. Criadas pelas gentes, que pensam para existir.

Princesa teve uma infância satisfatória, brincava entre as lavouras dos campos e em um amplo gramado na casa da família, e era mais observadora e menos peça participante durante o tempo na escola. Tudo era captado por aqueles olhos castanhos, genes dominantes. Havia uma necessidade de entender por que os professores falavam daquele jeito parecendo tão importantes, superiores… e, superficiais. Como aquelas coisas todas funcionavam? Uma sala de professores com mesa e cadeiras para reuniões. As cadeiras eram revestidas com veludo verde apregoadas com botões dourados, eram de madeira escura, envernizadas, com algum estilo imperial, tão imponente… lááá, naquela escolinha do meio do mato. A mobília era imperial, a educação, provinciana. Mas haviam tentativas de modernizar, foi colocada uma mesa de pingue-pongue no saguão, onde podia-se fazer a algazarra dos dias de chuva… Não durou muito.

Muitos eventos, vida intensa, personalidade forte, personagens variados. Tudo acontecia em torno da necessidade de entender como as coisas funcionam. Por que os primeiros dentes caem? Por que é preciso ir para a escola mesmo depois de já saber ler e escrever? Por que faz tanto calor? E tanto frio? Por que a lua clareia algumas noites e outras não? Dias nublados servem para o sol descansar? Quando chove o céu está chorando? O que tem neste bolo de chocolate? Hummm… pudim de leite é uma delícia! Livro novo de Geografia, dá licença, vou estudar. Uau! A Biologia é fascinante, quanta coisa para pesquisar e observar .

Ler um livro alheio ao conteúdo da escola era sempre mais atrativo do que tirar boas notas, mas ainda assim se saía bem. Gostava de observar comportamentos. Testar comportamentos, observar reações e relações diversas. Das gentes com as gentes, das gentes com a natureza, da natureza com a natureza… E leu muito sobre isso, logo encontrou-se com Freud5 e teve com ele um longo caso literário. Paixão de adolescente.

Gostava de assistir desenhos animados na programação infantil. “Óh, quem poderá me defender?” dizia Dona Florinda6, senhora viúva que vivia com seu único filho mimado e chorão em uma vila de costumes cotidianos comuns. Contrastava com a Bruxa do 71, ou Dona Clotilde, que vivia sozinha na casa ao lado, levantando suspeitas de praticar rituais macabros em seus aposentos. Havia a Smurfette7, única do gênero feminino entre os Smurfs, que atraía toda a atenção para si, com seus longos cabelos perfeitos e corpo escultural, olhar sedutor e jeitinho delicado. A Pedrita8, filha caçula da família das cavernas, engraçadinha e fofinha. A Mônica e a Magali, a Branca de Neve com os Sete Anões, e tantas outras que não chamavam muita atenção. A risada e o comportamento do Mutley9 eram sempre mais aproveitados do que as manhas da Penélope Charmosa, os olhos não piscavam no Fantástico Mundo de Bobby, e os aventureiros trapalhões do gênero masculino eram os personagens preferidos. Zé Colméia e Catatau, Capitão Caverna (e seu filho Caverninha), o Ligeirinho com seu “!ándale, ándale!”, Alvin e os Esquilos, aprontando todas! E o Zé Buscapé sentado na varanda com o chapéu na cara, reclamando aos resmungos da sua mulher, que sempre o chamava para dar alguma bronca. Aliás, o nosso Divino do Rock, Serguei10, andou declarando que nunca casou porque mulher é muito mandona e ele não conseguiria aturar. Tá certo. Obrigada pelo recado, Divino.

O tempo passou e os desenhos animados perderam espaço para as longas tarefas escolares no tempo que sobrava do dia de trabalho, a vida sempre lhe pareceu muito difícil. “Eu não disse que seria fácil!” — deve ser uma das orações mais cretinas a se expressar para quem está se sentindo confuso. Mas há gente cretina suficiente neste mundo para que todos em algum momento de suas vidas confusas ouçam esse… absurdo leviano.

As risadas do Mutley não causavam mais distração do que a louça pra lavar depois do almoço, e as pilhas de roupas pra lavar no final de semana eram sempre superiores aos melhores delírios de pesadelos do Bobby em seu Fantástico Mundo. Mas havia alguém com olhos azuis, genes recessivos, assistindo futebol e que vez ou outra entrava na cozinha pra pegar uma cerveja gelada.

Serguei, o Divino, faz bem em não suportar uma mulher mandona. Se um príncipe apenas suporta uma mulher mandona a tendência é que ele vá podando essa princesa até que ela se transforme numa capa aparentemente sem alma. Princesas todas tem asas, e algumas gostam mesmo é de voar! Um príncipe precisa ser muito seguro de si, precisa ter sido criado com muito amor pra que possa ser carinhoso e companheiro, cúmplice e receptivo de sua companhia feminina.

Depois de conhecer alguns príncipes e tentar formar par com eles, Princesa descobriu-se em uma nova confusão. Começou a investigar essas relações de mão dupla e descobriu que a maioria das princesas que “encontram” seus príncipes, na verdade não encontram, elas vivem de desencontros.

Há princesas que aceitam o príncipe errado (deveríamos definir melhor isso?) por acreditar na segurança financeira e material que este irá lhe promover, e na maioria das vezes acabam virando empregadas (ou nem isso, empregadas recebem pagamento, há um acordo prévio) domésticas da própria casa enquanto o “príncipe” sai do trabalho e vai tomar um choppinho com os amigos num bar lotado de princesinhas jovens, bonitas e atraentes, resultando em tristeza, amargura, solidão e desentendimentos. Há princesas que sofrem agressão psicológica sem nem saber identificar o que está acontecendo. Elas passam a escutar seus príncipes dizendo que somente eles são capazes de aturá-las, que elas são feias e que nenhum outro irá querê-las, ou que nenhum outro irá proporcionar à elas o que eles proporcionam, e sem que elas tenham condição de raciocinar ou entender melhor, o que eles proporcionam na realidade é um grande atraso de vida! Há princesas que sofrem urgência de gerar filhos (genes egoístas alterando conexões neuronais), e para realizar a façanha precisam casar de qualquer maneira com o primeiro príncipe que lhe aparecer disposto ou vítima em potencial, que com a bênção mágica de um padre qualquer “viverão felizes para sempre, amém!”. É muita falta de criatividade ou de algo melhor para fazer.

DSC01373Para a Princesa, livros são mais interessantes, levam mais longe, acertam mais vezes, sustentam com mais significado em comparação aos príncipes ou relacionamentos a rodo. Sempre curiosa, princesa voltou-se ao mundo dos príncipes, para então ver o que vinha na contra mão. E surpreendeu-se ao constatar que o que vem é chumbo grosso! Príncipes estão igualmente insatisfeitos, confusos, desiludidos, tristes, e cada vez mais solitários por faltar o encontro com a princesa certa (talvez devêssemos definir melhor isso). Mas o que é que está acontecendo com esses genes que não se põem mais a encontrar seus pares para a perpetuação de seus exemplares que melhor se adaptam ao ambiente11? Cadê aquele romantismo amoroso que parecia tão necessário? Tão “naturalmente” cultural? Será que “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”12?

Suspiros. Suspiram todos os últimos românticos do planetinha. Suspiram por seus amores escapados por entre os dedos, sem que nada mais possam fazer. Suspiram pelos amores que encontraram e perderam pelo caminho, suspiram pelos amores não encontrados e passados com o tempo, suspiram porque não parece haver mais amor para encontrar. Suspiram todos, príncipes e princesas, em busca imaginativa do amor que ficou nas histórias dos contos de fadas ou nas literaturas escritas em tempos do cólera13. Suspiram pelos suspiros das histórias imaginadas e não vivenciadas. E de suspiro em suspiro vão se tornando solitários demais, realistas demais. Modernos.

Princesa, que sempre gostou mais de ter seu espaço exclusivo, silencioso, individual, sente-se confortável em não ter que dar satisfação a qualquer príncipe que seja. Já desencantou. O que lhe restam de memórias são sucessivos casos e descasos de não amores e desamores românticos experimentados ou observados. Continua a observar as outras princesas que insistem em manter as aparências de felicidade sobre o encontro com o so-men-te-em-so-nho amor de suas vidas. Observa as outras princesas que se desesperam por não terem encontrado os grandes amores de suas vidas. Os príncipes que se juram amores das vidas de outras princesas que nada querem com eles… Os príncipes que não se juram amores das vidas de qualquer uma que seja, mas que gostariam de se jurar os amores de suas vidas. E, observa também a miscelânea de suspiros sinfônicos emitidos em sincronicidade global. Todos suspiram.

Poucos são os que estão satisfeitos entre a espécie de gentes do planetinha, parece que eles pensam demais, logo, existem demais. Existem tanto que ficam cheios de si, fartos de si mesmos, transbordando de si mesmos, e não sobra espaço paro o outro. Assim como para Serguei, o Divino, e para a Princesa que prefere a companhia de seus livros, o outro é demais. Não sobrou espaço. O que há de se fazer agora? Como fazer perceber que estão sobrando sós justamente pelo excesso de suas sobras?

Parece haver uma tarefa de aparar as bordas desse comportamento, parece haver uma necessidade de mais diálogos falados e menos monólogos pensados. Parece. Que se dois exemplares da espécie de gentes quiserem compartilhar uma convivência durante suas experiências existenciais, será necessário praticar a compreensão, a empatia, o envolvimento, a permissão, o resgate da ternura. Mas absurdamente, isso não acontece entre a princesa certa e o príncipe errado e a recíproca é verdadeira.

Entre as personagens de anti-princesas da programação adulta, está a desconcertante Rê Bordosa14. A mais desiludida de todas, vive de acordar em sofás alheios, não lembrando de como, quando, por quê, e com quem foi parar lá. Inconscientemente ela parece buscar pela busca do seu príncipe, que a cada nova (não)tentativa gera uma frustração. Rê Bordosa se lança então às drogas e encontra amparo terapêutico em sua banheira, até acordar e não saber ou lembrar como foi que chegou no próximo sofá, e assim consecutivamente. Há muitas Rê Bordosas entre a espécie de gentes, tanto as princesas como os príncipes repetem esse looping desenfreado merecedor de misericórdia.

São intelectuais, os exemplares de gentes. E com sua intelectualidade, que os diferenciam de outras espécies de animais existentes no planetinha, conseguiram construir a consciência de que também possuem a capacidade autodestrutiva, de que são malvados, culpados e que historicamente agem com uma ignorância tão impregnada nas vísceras que nem a evolução e capacidade científica conseguiram amenizar. Evoluíram a Ciência e ampliaram a criação intelectual, mas padeceram no entendimento e evolução da Filosofia Moral. Base de sustentação de um comportamento cultural em uma sociedade pensante que se comunica e se relaciona inter pessoalmente.

Princesa pensante sobre os fatos observados e experienciados, facilmente relaciona a educação provinciana com alguns comportamentos e a influência de alguns personagens a outros. Qualquer observador moderno, que por redundância é exigente, vai excluir das possibilidades aqueles personagens que não o agradam. Só que os que sobram são pessoas reais, com seus defeitos e qualidades, pesos e medidas, únicos e incomparáveis. Os que sobram são justamente aqueles que poderão ter alguma chance de preencher os espaços aparados daquelas sobras, quando admitem-se estarem cheios de si e dispostos a ceder para o outro.

Princesa pensante desencantou com seus desamores românticos, com seus personagens reais, com seus contos não contados. Desamou os príncipes errados tentando ser a princesa certa, sob o peso de uma cobrança ancestral traduzida em ensinamentos e tradições. Princesa pensante não busca pela busca de um príncipe, não morre errante como a Rê Bordosa, e continua tendo algo que avalia como sendo melhor para fazer. Mas Princesa pensante sabe que sente um brilho escondido no olhar quando vê aquele príncipe, que pode ser outro erro, mas que talvez dessa vez, seja o acerto.

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[1] Teoria do Gene Egoísta, de Richard Dawkins.

[2] “je pense, donc je suis”, René Descartes em seu “Discurso do método” de 1637.

[3] Charles Wright Mill, sociólogo norte-americano (1916-1962).

[4] Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista político Brasileiro. Em Abril/2013 publicou a breve nota em seu blog: “Tenho deixado alguns leitores furiosos ao elencar “escola” e “igreja” entre as instituições conservadoras responsáveis por passar preconceitos adiante. Peço desculpas. Esqueci de incluir “família”.”.

[5] Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista e fundador da Psicanálise. Refere-se a obra escrita por este autor.

[6] Dona Florinda, personagem da série “Chaves” criada pelo mexicano Roberto Gómez Bolaños (1929-2014).

[7] Smurfette, personagem da série de quadrinhos do belga “Peyo”, ou Pierre Culliford (1928-1992)

[8] Pedrita, de Os Flintstones, série de desenho animado de Hanna-Barbera Productions, Inc.

[9] Mutley, o vira-latas do desenho Corrida Maluca (Hanna-Barbera), criado por Iwao Takamoto (1925-2007).

[10] Serguei, o Divino, estrela brasileira e lenda do Rock.

[11] Teoria da Evolução, Charles Robert Darwin (1809-1882).

[12] Frase da música Relicário, de Nando Reis e lindamente interpretada por ele e Cássia Eller.

[13] Referência ao livro do colombiano Gabriel García Marquez, “El amor en los tiempos del cólera” de 1985.

[14] Rê Bordosa, personagem criada pelo cartunista brasileiro “Angeli”, Arnaldo Angeli Filho.

* Fotografia de Jalleh Inemen – Banco no Jardim Botânico / RS.

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