A página e o branco – relações desafiadoras

Uma página em branco. Tudo o que preciso fazer é escrever nela para ver se uma nova entidade se assume. Não suporto mais esta página em branco. Há tempos me deparo com ela e não sei como agir. Sinto um tipo de insegurança, fico confusa e por fim quase entro em pânico. Passivo, pois nunca pensei em colori-la. Não. Isso afetaria a sua “personalidade”. Quero superá-la sem trapacear.

Há anos tendo o hábito de escrever todos os dias, ao me deparar com uma página em branco e não saber como agir, parece que o chão se vai dos pés. Mas eu não flutuo levemente como um tapete mágico dos contos mirabolantes e nem despenco imediatamente em um buraco eterno. Eu simplesmente fico ali, permaneço, estática sem o chão nos pés e diante da página em branco a me encarar. Mas como dizer isso para a página em branco? Como dialogar com a página em branco? Me sinto tão incompetente. Se pelo menos ela me mostrasse alguma coisa, se me desse alguma pista. Eu poderia prosseguir após uma pista qualquer. Mas todas as pistas estão bloqueadas. Ou não há pistas. E a página em branco continua me encarando, com aquele ar blasé, como se tivesse por única missão de existir simplesmente me afrontar dessa maneira.

Logo esta página, tinha que ser uma página em branco? Depois de tantas páginas escritas, eu pensei ter chegado na página que me proporcionaria a mais fabulosa história e que permitiria ser editada quantas vezes possível para aperfeiçoá-la. Mas não. Esta era uma página em branco. Tristes tempos tristes. Mas eu ainda preciso escrever. E preciso convencer a página em branco. Preciso conquistá-la. Preciso seduzi-la. Preciso… Eu preciso escrevê-la.

Oh, página em branco, permita-nos.” Suplico em reza como se pudesse tocar a “sensibilidade” da página em branco com essas orações medonhas. “Você terá uma boa história para contar e eu terei me livrado dessa angústia.” Pelo menos dessa.

O que será que se passa no íntimo de uma página em branco? Será que há algo se passando em seu íntimo? Será que ao menos há um íntimo nas páginas em branco? O espaço das entrelinhas pertence às páginas em branco? Quando removemos uma escrita, ficam as marcas em seus íntimos? As entrelinhas permanecem ou são removidas com a escrita? Que diferença faz? As marcas ficarão eternamente. Mas a página em branco não mostra suas marcas.

Por tanto tempo desejei ter uma página em branco porque sabia que seríamos complementares, e quando a encontro, não sei o que fazer, não mais. Então, entrego-me à página em branco. Eu me rendo.

Levo a página em branco para a cabana. Mas a cabana esteve fechada por dois anos. Não havia mantimentos, nem roupas limpas e cheirosas, nem louças que eu pudesse usar sem antes lavar. Havia água e luz, e algumas trancas.

Passamos a primeira noite assim mesmo, com ratos, aranhas e escorpiões. O cheiro do pó e o mofo que ali era rei fizeram-se notar a noite toda. Pareciam carentes de quem os prestigiassem pelos seus incômodos. Pois eu, atordoada que estava, nem me importei. Rejeitei-os tão prontamente quanto me sentia rejeitada pela agora visceral página em branco.

A cabana é sempre um lugar maravilhoso. As árvores fazem seus sons assanhando-se a metros de distância nas alturas quando o vento passa com seu charme galanteador. Alguns pássaros pulam para outros galhos e pode acontecer de cair uma amêndoa ou folhas no telhado, fazendo barulhos estranhos que rompem o silêncio de uma casa no meio do mato. E a página em branco ali, simplesmente sendo uma página em branco. Tão estática quanto eu fico ao tentar encará-la.

Amanhece e abro todas as janelas e portas para limpar um pouco o ambiente na tentativa de torná-lo adequado para passar alguns dias. Por algum instante tento esquecer a página em branco pois ela está me aterrorizando. Então lavo louças e limpo a pia, ligo a geladeira e saio para comprar comida. Coloco os travesseiros e lençóis sob o sol e lavo as toalhas. Removo o que posso do pó acumulado por todos os lados em todas as coisas e limpo o banheiro. Há um chuveiro com água quente e o aquecedor está funcionando. Alívio.

Um dia cansativo de atividades que demandam força e movimento, planejamento e concentração. Depois de um banho quente o perfume do sabonete passeia pelos cômodos e eu finalmente deito para dormir em uma cama limpa, macia e cheirosa. O sol pôs seu cheiro nos travesseiros. E a página em branco continuava ali, em branco, mas eu estive ocupada com coisas mais importantes para pensar e fazer durante o dia. Amanhã dedico-me à ela.

Acordar em um lugar diferente do habitual, com raios de sol fazendo malabarismos para atravessar as janelas trancadas e chegarem até o seu rosto enquanto você acorda tentando lembrar onde está e o que está fazendo ali, é uma das sensações mais maravilhosas que se pode ter depois de uma noite de sono reparador em uma cama macia, quentinha e cheirosa. Quem disse que dá vontade de levantar para qualquer outra coisa? Mas eu havia comprado no dia anterior um café artesanal feito na região e estava curiosa para ver a paisagem aos primeiros raios do sol. É preciso ter motivações outras e evitar sucumbir ao horror de uma página em branco.

cabanaO lugar é lindo, sinto-me infinitamente privilegiada por ter acesso e poder passar esses dias na cabana. Ela está no alto do morro, mas não no topo, e quase imperceptível à distância pois camuflada no meio da mata com seus telhados verdes. Há uma varanda totalmente aberta no mezanino que fica de frente para a praia, e há outra varanda envidraçada que fica voltada para a mata, nos fundos da casa, com uma porta que liga a cozinha e as áreas de serviço. Até o teto é de vidro e no meio há uma salamandra que aquece o ambiente. Parece perfeito para as noites de inverno.

O aroma do café flerta com os raios mais atrevidos de sol e eles dão ao ar gelado as características de algo colorido e apetitoso. Eu me sentia em outra dimensão. Os olhos observam os detalhes, os materiais, as texturas, as formas e as cores. Os ouvidos são estimulados por sons diferentes daqueles aos quais eu estava acostumada na cidade barulhenta e poluída. São os pássaros que habitam esta pequena floresta, os galhos rangendo, as ondas do mar quebrando contra as pedras. É um gato que aparece não sei de onde. Há tanta vida em volta da cabana que dá vontade de ficar para sempre. É como se a partir de agora me faltasse vida em qualquer outro lugar.

No mezanino a estante cheia de livros que ninguém lê está tomada pelo pó, mofos e teias de aranha. Será preciso coragem para deixá-los limpos novamente. Talvez o sol colabore por esses dias. A vida me cerca com os seus mais incríveis espetáculos, mas ainda há uma página em branco que me encara desafiando a contar uma nova história. Lembro-me de alguém desejando bons sonhos: “não esqueça de dar corda no gato e pôr o relógio pra rua”.

Preciso escrever. Preciso desafiar, preciso provocar, e parecer ousada. Coisa que não costumo ser. Mas preciso tentar. Começo a escrever as primeiras letras mas a página em branco me afronta e parece não gostar nem um pouco do que estou fazendo. Não consigo. Mas não desisto. Estraçalho por dentro, mas não me dou por vencida. Me afasto e dou outro tempo, mais um tempo. Já esperei tanto, isso não importa. Eu preciso conseguir.

Busco novos estímulos. Observo novas relações. Como o bambu convive com a pitangueira ou como a pitangueira suporta aquele bambu sempre se fazendo presente com o seu cambalear de bêbado. Como os sabiás dialogam com seus pares, como eles se dispersam na caçada pelas frutas maduras, e todos se fartam. São uns barrigudos, esses sabiás. Como que o gato chega, e vai chegando de mansinho até conseguir o que quer. Um prato de leite. As relações assim se desenrolam sem muito mistério, é instintivo que as coisas coexistam e se harmonizem. Então. Então por que desse bloqueio com a nova página em branco? Será que por algumas marcas que tive a impressão de observar quando a vi pela primeira vez? Não tive coragem de observar novamente para me certificar de tais marcas, fiquei sem jeito, não quis parecer invadindo sua “intimidade”. Mas eu preciso escrever, eu sinto que preciso. E nenhuma outra página substituirá esta nova página em branco. É na página em branco que preciso me superar. É na página em branco onde está o meu desafio.

Vou tocar no assunto. Escreverei na página em branco sobre a minha dificuldade de acessá-la e de entender esse bloqueio. Escreverei sobre o quão importante é para mim que ela aceite a minha história. Esperei tanto tempo. Talvez ela entenda as minhas angústias, os meus medos, as minhas inseguranças, mesmo que eu não seja tão capaz assim de demonstrar tudo isso. Vou começar escrevendo sobre as marcas que tive a impressão de observar na primeira vez em que a vi mas que logo sumiram de vista, não estavam mais expostas para serem observadas e quem sabe até exploradas nas entrelinhas. Não era mais possível compreender o que havia ali, pois todas as marcas estavam sob seu domínio e somente a página em branco poderia me dar permissão de acessá-las. E eu não ousei pedir essa permissão, acreditei que seria possível escrever uma nova história sobre as marcas escondidas sem querer examiná-las antes. Não foi. Preciso de mais tempo.

Por quê? Por que acontecem esses desencontros entre nós, entre a página em branco e eu? Por que nos encontramos afinal? Teríamos nós as mesmas expectativas frustradas ou teríamos nós expectativas tão diferentes que não seríamos capazes de administrar essas diferenças? Preciso escrever, e a página em branco precisa de uma história. Mas não a minha história? O que está acontecendo? Por que estou me importando tanto com esta página em branco? Que fixação é essa? Isso é irracional. Me encanta o molejo de seus movimentos contra o vento, me encantam seus mistérios sobre as marcas escondidas. Me encanta estar tão próxima de escrever uma nova história sobre a página em branco que esconde suas marcas tão misteriosamente. Mas isso também é racional. O investimento que faço pretende a superação, pretende encarar o desafio e adquirir essa nova experiência com páginas em branco complicadas. Complexas. Se fosse fácil, não teria o charme que tem. Esta página em branco pode me render um romance. Talvez não, mas eu preciso tentar. Estou envolvida por seus mistérios, por sua indiferença, por sua existência aparentemente pacata de página em branco. Quero buscar suas verdades, quero descobri-la de seus segredos e explorá-la em suas mais perturbadoras marcas. Não tenho pressa, apenas um desejo incessante de acertar na minha história com esta página em branco.

Meses se passaram e todas as tentativas falharam. Não consigo admitir. Passo então para a próxima página e começo a escrever como se estivesse continuando uma história sem começo. E assim escrevo durante outros meses seguidos, sem problema ou dificuldade alguma. Quando percebo o fim da história se desenrolando, volto para a página em branco e finalmente consigo escrevê-la de forma a completar todo o romance.

Nesse momento havia tanta gentileza por parte da página em branco. Tanto aconchego. Tanta receptividade. Consegui escrever todos os primeiros parágrafos da história já contada adiante sem sequer apagar uma letra. Não deixei novas marcas. Somente a história como ela é. E nas entrelinhas algumas vezes eu podia ver o que eram as suas marcas escondidas. Eu podia perceber mas não deixava que isso me perturbasse, e seguia escrevendo a nossa história.

Depois de um tempo precisei reler e fazer as correções daquelas páginas, inclusive da página em branco que agora era uma página escrita com uma história minha, uma história que se fez nossa. E enquanto eu relia e acertava as correções, lembrei de tudo o que havia passado e admiti minha incompetência em lidar com aquela página em branco. Eu havia, talvez, me expressado mal em todas as introduções que tentara começar. E somente depois da história já contada foi que tive a permissão de escrever sobre o nosso começo. Sobre a página em branco e eu. Até que finalmente compreendi que aquela página em branco era apenas mais uma página e que o branco — aquele branco — era todo meu.

Fim.

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Fotografia de Jalleh Inemen – Pedras do Negro / SC
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2 comentários sobre “A página e o branco – relações desafiadoras

  1. Fluir, aceitando as páginas em branco – e também as negras – de nossa vida, aceitar a mudança como única constante e, embora caminhando rumo à coerência, tolerar a inconsistência dessa em nós e naqueles que nos acompanham pode deixar nossa experiência terrena mais aprazível.

    Excelente texto. Uma obra de arte, que pode ser olhada através de várias óticas e possuir várias interpretações.

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